terça-feira, 27 de outubro de 2026

O duelo em Devoradores de Mortos

Devoradores de Mortos 

No livro Devoradores de Mortos do autor Michael Crichton, a icônica cena do duelo por combate (holmgang) protagonizada por Herger é uma das minhas partes favoritas do livro e também do filme 13° Guerreiro de 1999. 

É um trecho que vai muito além da exibição de força bruta. É uma lição profunda sobre bravura, honra e inteligência estratégica.

Diante das intrigas covardes e dos boatos espalhados no palácio, os guerreiros nórdicos não recorrem à violência desmedida ou ao linchamento cego. Em vez disso, aceitam as regras rígidas do duelo para provar sua razão moral perante a comunidade, demonstrando que a verdadeira bravura caminha lado a lado com o respeito às leis e às instituições.

No filme, o desfecho do duelo revela o verdadeiro cerne da obra quando Herger, após vencer o oponente fingindo fraqueza: 

Ibn Fadlan: "Você! Você poderia tê-lo matado quando quisesse!"

Herger: "Sim."

Ibn Fadlan: "E por que a farsa?"

Herger: "A farsa é o objetivo! Qualquer tolo consegue calcular a força. Aquele ali [apontando para o príncipe inimigo] está fazendo isso desde que chegamos. Agora ele tem que calcular o que não consegue ver."

Ibn Fadlan: "E temer... o que não conhece." 


A resposta de Herger nos lembra de que a civilidade e a integridade ética são as maiores armas contra a barbárie. Vencer os "monstros" da polarização radical e da desinformação não exige rebaixar-se ao nível do pânico coletivo, mas sim ter a lucidez estratégica de expor a fragilidade dessas narrativas.

Para dissipar as névoas do extremismo, a sociedade atual necessita do mesmo pragmatismo da arena: a coragem de encarar os fatos de frente, a honra de manter os princípios inegociáveis e a sabedoria de fazer a ignorância recuar diante da clareza da razão.

A visão de "justiça" do protagonista Ibn Fadlan baseada na lei, na civilidade e na religião entra em choque benéfico com a visão dos vikings baseada no código de honra guerreiro, na lealdade ao rei e no destino. Juntos, eles entendem que enfrentar os terríveis Wendol (os devoradores de mortos) é o ato supremo de justiça para restaurar a paz no reino de Hrothgar.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

José, o Dragãozinho que Tinha Medo de Voar

José, o Dragãozinho que Tinha Medo de Voar 

Trazendo aqui a minha dica de hoje - José, o Dragãozinho que Tinha Medo de Voar da autora e professora Rosele Ramos com arte de Felipe Sena e foi publicado em novembro de 2025 pela Editora Cafezal.

A história traz José, um pequeno dragão que, apesar de ter asas, sente um grande medo de alçar voo. Ao longo das suas aventuras, ele descobre que coragem não é a ausência de medo, mas sim a capacidade de enfrentá-lo quando se sente seguro e acolhido.

A narrativa aborda de forma delicada e lúdica, o valor do apoio afetivo, da compreensão e do encorajamento na superação de desafios pessoais. O texto é curto, leve e pensado para leitores jovens, usando a figura encantadora de um dragãozinho como espelho das próprias inseguranças das crianças. A autora escreve de uma forma que equilibra momentos de tensão com cenas reconfortantes de apoio e amor familiar. Isso faz com que o leitor, principalmente os mais jovens, a refletir sobre a importância de olhar para os sentimentos sem julgamento. Essa abordagem pedagógica mostra que não precisamos “superar o medo sozinhos”; dá a obra um valor afetivo além da simples aventura infantil. 

As ilustrações de Sena são delicadas com cores vibrantes e simbólicas. O contraste entre a sutileza do traço e a vivacidade da paleta de cores confere um ritmo dinâmico ao livro. Cada página constrói uma atmosfera única onde o cenário dialoga diretamente com o conflito central da trama, expandindo e enriquecendo a experiência estética da obra.

Em resumo, é uma leitura significativa e cheia de leveza. É uma Fantasia perfeita para ser lida em família ou em sala de aula, especialmente em conversas sobre medo, acolhimento e coragem.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Conan the Barbarian n°182

Conan the Barbarian n°182

Edição publicada pela Marvel Comics em maio de 1986. Esta hq é especialmente marcante por trazer o selo do 25º Aniversário da Marvel.

A trama se passa durante um período em que o bárbaro atua em reinos civilizados, mais especificamente na região de Shem. O Rei de Shem nomeia Conan como seu senhor da guerra (warlord), fingindo demonstrar gratidão pelas habilidades de combate do bárbaro e utilizando sua força bruta para defender os interesses de sua coroa. Na realidade, essa aparente honra é uma fachada política. O soberano enxerga Conan como uma ameaça ou um peão descartável e arquiteta um plano sinistro para eliminá-lo. O plano envolve lançar o cimério diretamente em um conflito brutal e orquestrado contra os Pictos.

Bom, do ponto de vista estrutural, a edição é bem legal e agrada pela ação e disputas de poder.

A narrativa de "Testament" é um reflexo do estilo de escrita de Jim Owsley (Christopher Priest) nos roteiros da revista. Owsley gostava de afastar Conan do mero estereótipo de "matador de monstros" e inseri-lo em contextos onde a inteligência cruel dos reis civilizados era tão perigosa quanto o fio de uma espada, testando a resiliência e a astúcia do bárbaro, algo que também me agrada bastante.

Já a arte e os desenhos de capa são assinados pelo lendário John Buscema com arte-final de Ernie Chan. Buscema é considerado um dos maiores desenhistas da história da Marvel. Seus traços e domínio sobre cenários brutais definiram o padrão visual do Conan que influenciou gerações de artistas no mundo inteiro.

Entre intrigas palacianas, traições e batalhas campais, esta edição é uma síntese perfeita da Era Hiboriana. A obra cumpre bem o papel de entreter e solidifica seu valor histórico transformando um simples quadrinho em uma incrível crônica lendária.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Dragões do Alvorecer da Primavera

Crônicas de Dragonlance 

A primavera chega quando o inverno já parece ter convencido o mundo de que nada mais nascerá.

É justamente por isso que ela encontra em Dragões do Alvorecer da Primavera, dos autores Margaret Weis e Tracy Hickman, uma de suas imagens literárias mais poderosas. O terceiro volume das Crônicas de Dragonlance começa onde o inverno deixou suas marcas: depois da morte, da guerra, das perdas e das fraturas que atingiram os Companheiros da Lança.

Depois de Dragões do Crepúsculo do Outono e Dragões da Noite de Inverno, a trilogia chega finalmente à estação em que aquilo que parecia morto pode voltar a respirar, mas a primavera de Krynn está longe de ser inocente.

Há dragões no céu. Há guerras ainda acontecendo. Há a ameaça de Takhisis. E os próprios Companheiros precisam enfrentar conflitos interiores que talvez sejam tão perigosos quanto seus inimigos. 

Laurana já não é a mesma. Tanis também não. Caramon precisa lidar com aquilo que se tornou irreversível em seu irmão. Tasslehoff começa a compreender que coragem não significa ausência de medo. Até Raistlin atravessa sua própria transformação, embora seu caminho conduza para uma direção muito diferente daquela esperada pelos demais.

Em Krynn, acontece o mesmo.

A escuridão permanece poderosa. Os dragões continuam sobrevoando os céus. A guerra ainda cobra seu preço. Mas existe uma diferença fundamental: agora existe novamente a possibilidade de um amanhã.

Há momentos em que também atravessamos nossos próprios invernos.

Perdemos pessoas. Perdemos certezas. Algumas versões de nós mesmos deixam de existir. E, durante algum tempo, parece impossível imaginar que alguma coisa volte a crescer.

Talvez seja esse o verdadeiro Alvorecer de Dragonlance. 

Não é a ausência das trevas, mas a descoberta de que mesmo diante delas ainda é possível escolher caminhar em direção à luz.

E enquanto os primeiros raios atravessam o céu de Krynn, os dragões continuam voando e apenas a chegada da primavera nos lembra que ainda existe algo pelo qual vale a pena lutar.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O Destino da Espada - A Saga de Ériko Alek

O Destino da Espada

O livro foi escrito pela autora Karol Artiolli e publicado em 2025 pela Astrid Editora.

Nascido sob o peso de uma missão e marcado por uma antiga maldição, a história explora a saga de Ériko Alek que desafia o prórpio destino quando uma profecia ameaça a vida de sua esposa. Em uma jornada pelos Seis Mundos, ele buscará os lendários Construtores, seres ancestrais capazes de reescrever os caminhos do destino. Mas, entre reis cruéis, criaturas sombrias e uma espada cheia de magia e maldição,  Ériko descobrirá que alguns destinos talvez não possam ser mundados, apenas enfrentados.

O grande trunfo da obra reside na complexidade de seus elementos. A escrita maravilhosa da autora entrega uma narrativa super bem construída e cheia de textos incríveis que te envolvem e te levam direto para o fundo da história. 

Para os fãs de Espada e Feitiçaria, a espada de Ériko evoca imediatamente a icônica Stormbringer de Elric de Melniboné. A arma não é um mero instrumento, mas uma entidade com consciência própria que carrega forças sombrias.

Além das ótimas descrições dos monstros e criaturas que habitam este universo dark, o livro equilibra muito bem as batalhas brutais com as intrigas geopolíticas mantendo um forte apelo emocional focado nos sacrifícios familiares de Ériko.

Enfim, é uma leitura que me agradou bastante pela atitude e personalidade em buscar uma fantasia madura e rica em mitologia, romance, sistemas de magia e um protagonista trágico. 

Por sua execução brilhante e narrativa envolvente, O Destino da Espada: A Saga de Ériko Alek não teme explorar as nuances mais obscuras de seus personagens, entregando uma experiência profunda e memorável.


"Em que lugar dos mundos você ouviu dizer 'guerras em nome do amor'? As guerras sempre são travadas por conquistas, por terras, por posses, por rivalidade perenes. O ódio sempre move as coisas. O amor nos deixa indefesos, expostos, vulneráveis..."

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Correntes Obscuras: Vítima da Luz

Correntes Obscuras: Vítima da Luz 

Trazendo aqui o novíssimo lançamento para a Bienal do Livro de SP 2026 - Correntes Obscuras: Vítima da Luz de Rodrigo Rassoul. 

A historia começa dando ênfase a ascensão da deusa Parajá Têmisa na qual transforma a fé em instrumento de controle. O que inicialmente poderia parecer uma promessa de salvação começa, aos poucos, a revelar uma face muito mais perturbadora.

É nesse ambiente que surge Adônis, personagem colocado no centro de uma trama marcada por descobertas, perseguições e escolhas difíceis. Ao se aproximar dos segredos que envolvem o regime e os crimes cometidos em nome da própria divindade, ele passa de simples testemunha a ameaça que precisa ser eliminada.

Rassoul traz figuras e referências do nosso folclore e colocando-as em um cenário de disputa, poder e terror. Aqui a leitura está tão melhor, atraente e hipnótica quanto em Correntes Obscuras da Luz, seu primeiro volume, revelando um amadurecimento brilhante na sua escrita.

Gostei bastante da maneira pela qual a história não entrega todas as respostas de imediato. A narrativa parece abrir uma nova camada da trama, fazendo com que acontecimentos aparentemente isolados adquiram outro significado conforme a leitura avança. 

Isso ocorre com diversos personagens como Adônis, Desdêmoda, Mariuska e as lutas dos Cadejos e outras criaturas sobrenaturais. Essa construção mantém uma sensação constante de desconfiança num universo dominado por dogmas e conspirações.

Com um belíssimo projeto gráfico e excelentes artes de Franklin Fernandes, Correntes Obscuras: Vítima da Luz surge como uma leitura envolvente. É um olhar fantástico para olhar para um Brasil imaginário e  estranhamente familiar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O Mal Consumado

O Mal Consumado 

Hq de terror escrita por Gustavo Pietkowicz Freire e desenhada por Andrios S. Moreira, lançada em 2026 pela Harpia Comics .

A história acompanha três influenciadores digitais: Gael, Mariana e Henrique, cujo desaparecimento desperta a atenção das redes sociais. O ponto de partida é extremamente inquietante: o que acontece quando a busca por audiência coloca jovens diante de algo que jamais deveria ser tratado com entretenimento?

Bom, eu gostei demais dessa premissa. A hq é muito legal e rapidamente demonstra que pretende ir além. O desaparecimento dos protagonistas conduz o leitor a um território no qual superstição, violência e horror sobrenatural se misturam. 

A ideia central nasce de uma crítica a essa necessidade de transformar qualquer experiência em espetáculo. Talvez seja aí que o roteiro encontra sua maior força, pois é tudo muito bem organizado e evoca o clássico formato das antologias de horror das antigas revistas de banca como a Calafrio e Mestres do Terror dos anos 80.

Gostei também da arte e de sua atmosfera. Os quadros são bem claustrofóbicos, as sombras ocupam mais espaço e os rostos e olhos tornam-se deformados. O sobrenatural finalmente deixa de ser uma sugestão para ocupar o espaço da página. 

Enfim, foi muito divertido de ler e indico para os fãs de terror e principalmente para aqueles que sentem saudade do clima das antigas hq's brasileiras. É uma leitura que vale a pena conhecer sobretudo para quem acredita que o horror nacional ainda tem muito a dizer.